E já passou um ano desde um dos dias mais importantes da minha vida…
Uma carta do passado
2 12 2010Há exactamente um ano atrás escrevi um mail a mim mesma e enviei-o para ser entregue um ano depois (FutureMe.org).
Na altura, ainda não sabia o que seria da minha vida a seguir ao doutoramento: viria para Paris fazer postdoc? Estaria a fazer um postdoc noutro sítio? A trabalhar em telómeros? A finalmente receber um salário?
Para além do trabalho, também no campo pessoal muitas dúvidas se punham, nomeadamente a sobreviência ou não do meu relacionamento com a distância (devido a vivências passadas, sou bastante céptica sobre este tipo de relações).
E foi com um sorriso na cara que li os meus desejos e medos de há um ano atrás. Na verdade, tudo o que queria há um ano mais uma vez se realizou. E até bem melhor do que eu poderia ter sonhado…
Sim, também hoje tenho incertezas e volto a não saber o que farei no meu futuro já tão próximo, mas este mail do meu “eu passado” lembra-me mais uma vez que a vida me tem sorrido muito e que ter corrido atrás dos meus sonhos acabou sempre por compensar.
Onde estarei daqui a um ano, dois? Não sei. Mas para mim é suficiente saber que no fim de 2010 volto a ser a mesma pessoa que era no início do doutoramento e que os meus sonhos têm sido, até agora, concretizados. A única certeza é que sou mesmo uma sonhadora e que têm sido sonhos a comandar a minha vida.
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Ainda o PhD
21 07 2010No passado fim de semana fui receber o meu diploma de doutoramento. Quase um ano depois da submissão, da defesa, de já ter sido aprovado pelo Senado e já ter o certificado há uns meses, decidi ir até Leicester e viver o meu momento “Harry Potter”.
Não sou nada de titulos, de demonstrações de sucesso, mas achei que um dia me arrependeria de não ter participado. Também é verdade que não teria vivido toda a vida académica british se não participasse nesta cerimónia.
E que formalidade! Todos os graduandos com lugares definidos, vestidos com túnicas, “capas” de acordo com o grau e a faculdade, e chapéu. Entramos no anfiteatro e esperamos em pé que toda a congregação entre, ao som de música solene e se sente nos devidos lugares no palco. Há discurso de abertura, três pancadas no chão, salutações de chapéus académicos e por fim somos chamados um a um, por ordem alfabética, primeiro doutores, seguidos de mestres e finalmente bacharelados. Como a minha faculdade é de Ciências Biológicas e Médicas, até juramento ao Tratado de Geneva (juramento de Hipócrates) houve. Discursos inspiradores a relembrar que não só de trabalho se compõe o sucesso. Sorte, a sorte é um componente essencial e a nós só nos resta estar atentos, agarrá-la e aproveitá-la se nos cruzarmos…
No fim, a surpresa de ver uns pais babados a acentuar como o Viva foi tão privado, só mesmo eu é que o vivi. E é por isso que estas cerimónias são importantes, por “mostrarem” aos nossos mais queridos que realmente se terminou mais uma etapa. Para lhes dar um dia para celebrar connosco. Isso e o rever de colegas, um diploma para guardar e estimar e sim, muitas fotografias para relembrar.
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Abri os olhos e…
5 04 2010
Uma vida parece que passou desde o meu último post e desde que este blog se iniciou, há um aninho atrás. Na altura, a última fase do doutoramento iniciava-se e eu já tentava lutar contra a monotonia que reinou nestes 12 meses.
No entanto a vida continuava a rebolar, mesmo quando sentia o tempo parado e foi o tempo que me pregou uma grande partida! Apesar de me percepcionar num dos momentos mais letárgicos da minha vida, a verdade é que muito aconteceu e mudou… As mudanças foram rapidíssimas e enormes e talvez seja isso que agora me arregala ainda mais os olhos e me faz pestanejar incrédula, a tentar descrever como tudo aconteceu.
Pois bem, apesar da monotonia da tarefa, o doutoramento foi concluído, o que pôs fim ao meu ciclo estudantil.
Acabei por arranjar uma posição num dos lugares mais conceituados da minha área e, apenas uma semana após a chegada, já só sinto ideias a borbulhar num ambiente extremamente estimulante.
Mudei de sítio. Sayonara à cidade pacata e Olá a uma das cidades mais cosmopolitas. Ainda me sinto meia perdida, principalmente com a mudança de língua. Uma nova cidade, uma cultura diferente, um novo trabalho. Estou excitadíssima e parece-me que em tudo mudei para melhor. Para já não vejo esta cidade como a “minha cara”. Terá de competir com Lisboa (e muito), mas vou dar-lhe uma grande oportunidade.
Mas acima de tudo, tive muito tempo para pensar e analisar o meu lugar no mundo. Sei que há muito que me sinto em casa em qualquer lugar, mas fazem-me falta as amizades fortes que fui deixando para trás e que a distância não me permite nutrir como gostaria. A minha família ajuda-me a sentir bem onde quer que esteja, já que constantemente me relembra que está sempre comigo. Perdi muito nos últimos anos, mas ganhei outro tanto e parece-me que a vida é isso mesmo. Levei bofetadas, de amizades que achava para a vida… Mas apesar de quem mais me quer me dizer para aprender a não acreditar tanto, não me oferecer assim aos outros, sou teimosa e continuarei a dar a minha alma a quem a quiser. Levarei mais bofetadas? Talvez. Provavelmente. De certeza… Mas não sei ser de outra maneira e sinceramente, também não quero ser. Não me quero tornar como essas pessoas, usar e abusar enquanto preciso e depois “tchau-tchau, arrivederci”. Afinal, o meu lema de vida é ou não é “Sê a mudança que queres ver no mundo?”. E já por estas novas bandas, alguns sorrisos me foram presenteados, por pessoas super prestáveis que me ajudaram imenso a ambientar a esta nova casa (já agora, obrigada Clarita).
E agora, os sonhos continuam e ainda mais fortes do que há um ano atrás. A motivação está em alta e num só dia fiz o que andei 6 meses para fazer. Quero muito trabalhar e trabalhar muito. E aos pouquitos, quero conhecer esta nova cidade.
Onde estarei daqui a mais um ano? Não sei. Mas não me preocupo muito porque sei que esteja onde estiver, estarei bem.
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Standby
10 03 2010Há uma semana que não escrevo nada por este cantinho…
Apesar de muitas festas e jantares, parece que cá dentro nada se passa, sou uma passageira a ver a vida a passar. Tenho andado num estado letárgico em que o Tempo vai passando como nunca o tinha sentido antes.
Será que não? Ao escrever isto parece que afinal sim, já antes senti isto. Aquele mês de Setembro, antes de me mudar para a Dinamarca. Sim, foi assim. E também aquele outro Setembro, antes de mudar os 15kg de mala para Inglaterra… Foi igualmente assim.
Afinal a diferença parece ser apenas no mês, desta vez Março é o mês pasmaceiro.
Amanhã entro na recta final: Madrid –> Portugal –> voltar: entregar a versão final da tese, festa de despedida, fazer as malas –> Paris!
E um nozinho no estômago começa a apertar à medida que se torna cada vez mais real…
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Cansada…
2 03 2010O que fazer quando trabalhamos para alguém que claramente nos põe no fim da lista de prioridades? E que ainda por cima acha que perdemos a motivação muito facilmente? Anos a pedir encontros que são adiados por semanas (uma vez por 2 meses). Anos a tentar fazer projectos e ouvir SEMPRE um “não sei se valerá a pena, não sei se resultará”… Pois, nem eu, mas se não se tentar continuamos sem saber, certo?… Não, eu sempre estive motivada mas o meu entusiasmo foi abafado por uma enxurrada de “nãos”… E mesmo assim, lá acabei e o meu trabalho impressionou o jurado! Mas se tivesse tido o apoio e a orientação devida, tenho a certeza que teria levado o meu projecto muito, muito mais longe… Mas achava que estava finalmente livre? Não… Ainda falta o mais importante. E continuo no fundinho da lista… E apesar disto, tenho de continuar, de insistir, afinal é o MEU futuro! Mas continuo a levar com “temos de nos encontrar”, mesmo quando os 5 meses que tinha para adiantar tanto já acabaram… Estou frustrada, estou cansada. Estou a fazer o que deve ser feito, mas sem orientação é um monstro enorme! Preciso de debater ideias, preciso de esclarecer uma linha de escrita… Sim, estou mesmo cansada de remar contra a maré…
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Celebration time!
10 02 2010O doutoramento foi devidamente celebrado com uma “festinha” organizada em cima da hora e com um fim de semana em Londres com os meus papis (fotos não há, tenho de esperar que a minha gentil maninha trate disso).
Mas como viajar é uma das minhas paixões, o doutoramento merecia uma viagem a um sítio onde ainda não tinha estado. Já que o tempo que a minha companhia tinha disponivel era bastante limitado, teria de ser um short flight e há muito que esta cidade “chamava” por mim. Assim, durante 4 dias, Marrakech foi o meu escape para relaxar, aprender, sorrir e encher os sentidos com a multiplicidade de cheiros e cores.
Como era a primeira vez que iamos a Marrakech, chegavamos à noite e a Riad onde iamos ficar era mesmo no centro da Medina (só há acesso a pé até à Riad), alugamos previamente um taxi através da Riad para não nos perdermos. Mesmo com o meu sentido de orientação, nunca teriamos chegado sem o guia e aqueles becos labirinticos impõe respeito a qualquer recem-chegado!
A Riad (Riad des Droles) é lindissima! Só tem 4 quartos (é uma casa palacial convertida em “hotel”) e nós fomos os únicos hóspedes durante toda a estadia! Apesar de decepcionante (adoro conhecer pessoas e o ambiente intimista seria optimo para conviver com outros hospedes), foi como se estivessemos na nossa casa, pelo que estivemos super à vontade! Uma decoração e ambiente bastante chillout, com Thievery Corporation a embalar a dança das velas. E os pequenos almoços (incluidos) simplesmente divinais! O único senão foi mesmo o terraço, que supostamente tem um sun lounge mas, talvez por ser inverno, estava um bocado desleixado e não muito convidativo.
Logo nessa noite aventuramo-nos pela praça Djemaa el Fna, onde rapidamente fomos “raptados” para um dos vários restaurantes. Comida deliciosa e barata (€2-3 por prato) altamente recomendável!
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Tags: PhD, Marrakech
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“Trust me, I’m a doctor”
3 02 2010E desde dia 29 Janeiro 2010 sou oficialmente Doutora!
Custou muito, poderei ter “desperdiçado” alguns dos melhores anos da minha vida para este doutoramento, mas valeu a pena!
Aprendi muito mais do que qualquer licenciatura (das antigas, of course) me poderia ensinar, mas acima de tudo sinto que me tornei cientista, com capacidade crítica suficiente para analisar escrupulosamente os resultados.
Custou ser tratada durante tanto tempo como “estudante”, custa ainda ouvir “quando arranjas emprego”, custa sentir o fosso entre a vida científica e as profissões mais ou menos “normais”. Durante estes anos, todos os “outros” trabalharam com 14 salários bem rechonchudos, descontam para a reforma, têm planos de saude, muitos já têm carro, casa, alguns até família! Seguir para doutoramento e, depois, para uma vida em investigação implica sacrifícios e abrir mão de muitos benefícios sociais. Mas a paixão e a certeza de que trabalhamos para o futuro de todos compensam e no fim, tudo vale mesmo a pena.
Estou feliz. Não pelo título que adquiri, mas pelo meu trabalho que o título reconhece. É que ser doutorado é muito mais do que os doutores e engenheiros licenciados. Não é um prémio pelas cruzinhas feitas em exames durante 5 anos (e agora 3… vergonha…). É a recompensa e o reconhecimento pelo trabalho, muitas vezes solitário, que desenvolvemos e que contribui para o avanço no conhecimento de uma determinada área.
E agora? Agora venham as pipetas e os eppendorfs e que se faça ciência!
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Countdown almost over…
28 01 2010-1 para o Grande Dia…
Estou nervosa, com medo mas acima de tudo bastante excitada e curiosa.
Amanhã por esta hora já estará tudo acabado?
Fingerscrossed…
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E o Nobel da Medicina 2009 vai para…
5 10 2009… Investigadores que levantaram a ponta de um dos mistérios mais bonitos da genética celular: os telómeros!
Blackburn, Greider e Szostak receberam hoje o máximo reconhecimento atribuído a cientistas e eu, amante dos telómeros e, como tal, da investigação destes senhores, estou exuberante!
Todos nascemos a partir de uma só célula que se divide, divide, divide até formar um organismo completo. As células continuam quase sempre a dividir-se. Para que toda a informação genética passe de célula para célula, o DNA tem de ser devidamente copiado.
Antes da célula se dividir, o DNA compacta-se ainda mais e forma estruturas em forma de X (cromossomas), é copiado e cada cópia (metade do original + a sua cópia) vai para uma das duas células que se formam.
No entanto, os mecanismos que copiam o DNA não conseguem copiar as pontinhas dos cromossomas, o que causa a sua erosão com as sucessivas divisões celulares.
Essas pontinhas são os telómeros, complexos formados por proteínas que se associam à sequência genética existente no fim de todos os cromossomas (nos humanos, são repetições das bases TTAGGG). Os telómeros são extremamente importantes para proteger a integridade do resto do genoma (a molécula de DNA). Mas a sua função não se prende apenas com protecção, pensa-se que estão activamente relacionados com o envelhecimento e com cancro.
Como? O modelo actual propõe que, quando os telómeros (as pontinhas dos cromossomas) são demasiado pequenos após várias divisões celulares (noutras palavras, quando se envelhece), a função protectora fica comprometida e a célula activa sinais para parar de se dividir. Por exemplo o envelhecimento da pele (principalmente a falta de elasticidade) pode ser explicado pela diminuição do número de células devido à paragem das divisões. Contudo, algumas células “escapam” esse bloqueio e tornam-se “imortais” activando um dos mecanismos que elonga os telómeros. Um desses mecanismos é a enzima telomerase (descoberta pelos galardoados) que adiciona TTAGGG aos telómeros mais curtos das células humanas, facilitando a continuação da multiplicação celular. O outro mecanismo (que estudei no meu doutoramento) é o mecanismo alternativo de elongação dos telómeros (ALT), onde os telómeros mais curtos invadem uma molécula de DNA com a mesma sequência genética, copiando-a para se auto-elongar.
Antes da activação de um destes mecanismos, a célula passa uma fase de crise, onde o DNA pode ser afectado. Se tal acontecer e os erros no genoma não forem devidamente corrigidos, quando a célula se torna imortal tem potencialidade cancerigeno, devido a todas as lesões genéticas que contem. As células que derivarem desta célula serão também “mutadas”, o que eventualmente poderá gerar um cancro.
E é assim, muito simples e resumidamente, que os telómeros são considerados tanto como relógios celulares, como activamente envolvidos na formação de manutenção de células cancerigenas.
E é por isso que estes três senhores merecem este prémio.
E numa nota, a título de curiosidade, a área dos telómeros é genialmente populada por mulheres!
A primeira pessoa a notar que as pontas dos cromossomas teriam qualquer de especial foi uma mulher: Barbara McClintock;
A grande cérebro do estudo galardoado foi Elizabeth Blackburn;
Muitos dos chefes de investigação nesta área (como a minha orientadora de doutoramento) são mulheres. J
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