Oriente no Ocidente

24 08 2009

Há muito que ando para escrever sobre esta temática, mas como tenho os pensamentos soltos, adiei e adiei.

Mas lendo esta notícia a ideia voltou-me e aqui estou…

Os israelitas acusam os suecos de anti-semitismo justificado pela liberdade de expressão.

Os muçulmanos acusam os franceses de racismo pela proibição da burka (já antes tinham acusado os dinamarqueses do mesmo, também acusando a liberdade de expressão aquando do episódio dos cartoons).

Ninguém acusa os ingleses de nada, porque os bifes são tão politicamente correctos que vão recebendo, repartindo e calando.

Mas afinal, somos (europeus) anti-semitistas, racistas, intolerantes? Ou serão esses povos/culturas/mentalidades os intolerantes que nunca se esforçam para entender a cultura europeia, já para não mencionar o adaptarem-se a ela? Sim, porque nós também temos tradições e uma delas é precisamente a tolerância para o que nos é diferente.

Usando Inglaterra e a Dinamarca como exemplos, já que são os países onde vivi com maior número de emigrantes (Portugal é outra história, como vivi lá toda a vida tenho dificuldade em fazer uma análise imparcial da situação dos emigrantes).

Na Dinamarca, onde vivi durante 9 meses, só vi um mendigo uma única vez e essa imagem chocou-me (confesso que me tinha esquecido dessa visão) e visivelmente chocava todos os dinamarqueses que por ali passavam , cuja expressão mostrava que não era uma situação habitual. Na altura (2004-05) havia imensos emigrantes e todos eram recebidos e tratados como qualquer cidadão (escola gratuita para os filhos, saúde para toda a família, benefícios fiscais e por aí fora). No entanto, uma nova atitude de desespero/incompreensão para com a comunidade muçulmana estava a surgir entre os dinamarqueses aquando da minha estadia.  Cada homem emigrado ia para a Dinamarca para trabalhar. Rapidamente se estabelecia e chamava a família (no mínimo a mulher e os filhos todos). Ora, para os muçulmanos, as mulheres não trabalham. O que resultava numa única pessoa a trabalhar (e pagar impostos) para um sistema que literalmente sustentava a família toda. A Dinamarca já estava com problemas de envelhecimento da população (as estimativas na altura era que em 2010 haverá 1 trabalhador para 5 reformados), o que os obrigava a repensar todos o sistema Wellfare (todos os cidadãos têm direito a educação e saúde). Mas a onda de emigração muçulmana estava na altura a preocupá-los (e na minha opinião, com razão).

Aqui em Inglaterra o caso é ainda mais grave. A grande vaga de emigração já aconteceu há muito tempo e a comunidade muçulmana (falo nesta porque para mim é a que menos respeita as outras culturas) está confortavelmente instalada. E a situação de intolerância atingiu patamares tão elevados que, por exemplo na minha universidade existe uma sala de rezas que na prática é uma mesquita, já que apenas os muçulmanos a utilizam (é uma autêntica invasão). Mas com isso eu até convivo. O que me custa engolir (e os ingleses só o fizeram porque são tão politicamente correctos que não tiveram coragem de impor restrições…) são as ofensas visuais a que estou constantemente sujeita ao viver aqui.

Sim, não gosto de ver uma mulher completamente tapada, com apenas os olhos a descoberto (e às vezes nem isso!). Eu sei que cada um é livre de se vestir como quiser (desde as bifas quase nuas, às túnicas bem longas). Mas a cara toda tapada??? Não! E desculpem-me, mas quando estou numa fila e olho para trás e me deparo com “aquilo”, não quero ter de fingir que está tudo normal porque para mim não está! Assusto-me e olho segunda vez! Venham para a Europa, as portas estão abertas. Tapem o cabelo, eu também o tapo quando me irrita, ou quando está muito sol. Tragam a vossa cultura, principalmente a música e a comida! Mas deixem as tradições do século passado nos vossos paises de origem! Mostrem a cara! Deixem as vossas mulheres trabalhar!

Só para perceberem a dimensão:

  1. Já dei aulas a uma menina à qual nunca lhe vi a cara (e só pelas pestanas é que tive a certeza que era mesmo menina);
  2. uma aluna do meu namorado pediu para mudar de grupo, porque não queria ser ensinada por um homem
  3. uma estudante de medicina recusou-se a examinar um homem, porque não lhe era permitido tocar homens
  4. o grupo de investigação do meu namorado teve de celebrar o Natal num restaurante muçulmano, porque senão os muçulmanos do grupo não se juntariam às celebrações (convem lembrar que aqui todos os restaurantes tem várias opções vegetarianas, perfeitamente adequadas para qualquer restrição religiosa…)

E para quem me conhece, sabe bem a minha experiência com uma housemate muçulmana…

As primeiras perguntas que me fez quando me conheceu foram :”Como te chamas”, “De onde és” “qual a tua religião”. Como não acredito em nada, choquei-a tanto que me perguntou “se não acreditas em nenhum Deus que observe tudo o que fazes, como é que escolhes fazer o bem em vez do mal? Se não tens ninguém a ver e a julgar…” Para além de ter as minhas panelas (para cozinhar porco à vontade), os meus copos e canecas (para beber alcool à vontade) e sempre que punha porco no frigorífico punha uma etiqueta para ela não tocar…

Eu tinha mudado de país, mas a convivência com esta rapariga fez-me achar que tinha mudado de continente. E revoltou-me o ter de ser eu a justificar a minha postura na vida e a adaptar-me aos costumes dela em vez de ser ela a fazê-lo já que foi ela que mudou de cultura e não eu! E isto é uma constante em Inglaterra. Tudo bem, podia ter recusado, mas prefiro uma convivência pacífica e sinceramente na altura só queria “respeitar” os costumes dela.

Na cidade onde vivo pensa-se que os muçulmanos já são mais de metade da população. São na maioria boas pessoas mas custa-me que tenha de ser Inglaterra (e a Europa) a adaptar-se a eles e não o contrário… Afinal, quando um europeu vai de férias ou a trabalho para os países deles, imediatamente pergunta como se deve vestir e comportar!

Por isso não nos chamem de intolerantes. Não nos reprimam a nossa liberdade de expressão. É essa liberdade que vos permite vir tão facilmente para este mundo ocidental tentar (justamente) ter uma vida melhor.

Ninguém escolhe onde nasce e eu sou completamente contra limitações à imigração. Todos temos direito de tentar ter uma vida melhor, independentemente do sítio onde nascemos. Mas, vamos respeitar-nos? Respeitemos principalmente quem tão rapidamente nos acolhe e partilha o sistema social connosco. Respeitemos acima de tudo a liberdade de ser e pensar diferente.

a178

foto tirada numa rua em Aman, Jordania

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24 08 2009
VeroNikita

Uau, não podia concordar mais contigo. Qual a diferença entre uma mulher (?) inocente toda tapada e uma outra pessoa usando um daqueles gorros que só deixam os olhos à vista, à luz do dia, ou da noite?… Eu desconfiaria das intenções desta segunda pessoa, assim como olho sempre com estranheza e incerteza quando me deparo com uma muçulmana vestida de burka em plena Lisboa, cidade pacífica e aberta a todas as culturas.
Fico bastante indignada quando turistas estrangeiros (principalmente espanhóis…) visitam o nosso país e têm total desrespeito pelos nossos costumes, incluindo a nossa língua. Muitos nem tentam aprendem umas poucas palavras… Não me passaria pela cabeça visitar outro país e esperar que compreendessem o meu português ou visitar uma mesquita ou igreja católica semi-nua por exemplo :-/

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