Haiti e a hipocrisia humana

19 01 2010

Não vou falar da catástrofe causada pela Natureza. Prefiro falar da catástrofe causada por nós, humanos.

Adoro viajar de cruzeiro e aconselho a todos, especialmente para viagens com a família. Talvez noutro post fale dos porquês mas hoje quero apenas relembrar o único destino que me deixou uma sensação muito estranha na barriga: o Haiti.

Se não me engano, já foi em 2001. Como normalmente, tinhamos viajado de noite vindos da Jamaica ou das Ilhas Caimão e quando acordamos estavamos em mais um porto, num novo destino. As primeiras impresses foram espectaculares, o verdadeiro paraíso na terra. Um mar azul-esverdeado, areia branquinha rodeada por orlas de palmeiras que se perdiam pelas encostas esverdejantes das montanhas à nossa volta. Já na altura de escolher a excursão no Haiti achamos estranho não haver uma alternativa cultural, por exemplo à capital Port-au-Prince. Não, no Haiti só mesmo praia… O meu pai torceu o nariz (não gosta de praia e para isso ficavamos no nosso Portugal) mas lá desenbarcamos.

À nossa espera estava um autêntico festival: espectáculos com danças tradicionais,  mercados com imensos artigos artesanais, muita comida tradicional à disposição, bares a fazer cocktails,estiradeiras, águas de coco, etc, etc, etc. As fotografias são geniais, e os recantos pareciam desenhados por um famoso arquitecto paisagista de tão paradisíacos que eram. Para lá desse festival, nada da civilização. No mercado, perguntava aos vendedores onde moravam. Não respondiam, só riam e tentavam vender, claro.

Resolvi explorar o mar de Kayak. Eramos um grupo grande com dois ou três monitores que insistiam para não nos afastarmos deles mas sobretudo para não passarmos uma peninsula mais à frente. Ora, cá a C., curiosa como sempre e já super intrigada por não haver civilização à vista para sustentar todo aquele luxo, logo me dirigi para lá num momento de distracção dos monitores. A minha mana e mais umas pessoas também vieram e lá passamos a curva. E o que vi só pode ser explicado por este anúncio da Malibu. Mas ainda estavamos longe e começamos a remar para lá, onde umas crianças já nos acenavam da praia. Queria? Queria muito, mas os monitores depressa vieram puxar-nos aos gritos que não podíamos ter ido até ali e tinhamos desrespeitado as ordens… Basicamente tinhamos visto o que a companhia Royal Caribbean não queria que vissemos no Haiti: pobreza… Quando cheguei a casa, pesquisei e lá percebi que afinal não tinha estado no Haiti coisa nenhuma. Laberdeen é uma praia privada, pertencente à gigante companhia de cruzeiros, onde eles levam os turistas totós (como eu) fingindo que os estão a deixar riscar Haiti da listinha… Foi o único sítio que visitei que senti isto, onde “fui” sem ter ido…

E porquê falar disto agora? Porque apesar de toda a catástrofe, apesar dos aeroportos e portos estarem fechados e a ajuda não poder chegar a quem precisa, a Royal Caribbean continua a desembarcar no porto de Laberdeen, a cerca de 200 km de Port-au-Prince… Pelos vistos há turistas que ficam indignados aos quais a companhia diz “se ficam incomodados, não saiam do barco”…

Parece que após o choque internacional, disponibilizou-se a dar estiradeiras aos hospitais, assim como oferecer o dinheiro que os turistas pagam pelo dia na praia de Labardeen para ajuda humanitária. Se o fizerem, nem tão mal, mas este episódio voltou a lembrar-me de como esta visita me incomodou, apesar de ter estado num dos sitios naturalmente mais bonitos que já vi…

Por estas e por outras que tenho certas duvidas se voltarei a viajar com esta companhia…

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