A fuga de cérebros

27 04 2010

Há poucos dias o Professor Mariano Gago (ministro português da ciência) proferiu uma infelicíssima afirmação:

“Portugal é o caso mais exemplar no pós-guerra, talvez o único, de grande desenvolvimento científico sem brain drain [fuga de cérebros], ou com pouquíssimo […] O número de pessoas (portugueses) da ciência fora de Portugal é insignificante.”  O Público 25.04.10

Desde então, um turbilhão de revolta tem agitado a comunidade científica portuguesa no estrangeiro. Só num grupo do facebook criado para inquirir sobre o número real de “insignificantes”, já somos mais de 600, em apenas 2 dias de existência.

Alunos de mestrado, doutoramento, postdocs e professores universitários, espalhados por todos os cantos do mundo, mas principalmente a trabalhar nos melhores centros de investigação  mundiais.

Pessoas altamente qualificadas, inteligentes e aventureiras, verdadeiros “cérebros” como a imprensa gosta de apelidar. A nata da nata e sim, somos muitos. O orgulho de qualquer país, não só pelo cartão de visita ao intelecto nacional, mas pelo potencial futuro de desenvolvimento e crescimento. Mas parece que os que mandam em Portugal não nos vêem assim…

Temos sido uma camada social calada, que trabalha sem condições sociais nenhumas: constantemente à procura de financiamento, constantemente a ouvir “não és suficiente bom” ou “o que fazes não é interessante”, sem descontos para a reforma, sem segurança social, sem subsídio de desemprego e com salários miseráveis, principalmente quando comparados com quadros intelectualmente inferiores.

Até agora, temos aguentado. Trabalhamos por paixão e somos felizes assim. Aguentamos cada vez que nos confundem como estudantes, aguentamos cada vez que temos de explicar quantos anos de estudo e quantos canudos significam as posições que temos. Aguentamos e engolimos em seco quando ouvimos os salários rechonchudos de colegas que andaram anos a fio de papo para o ar, sem trabalhar nem estudar. Aguentamos termos tanto saber, empenho e sucesso acumulado sem no entanto termos estabilidade à vista. Até agora, tudo isto temos aguentado.

Mas as palavras de propaganda que o Ministro proferiu são revoltantes! Sim, Portugal está com condições científicas incomparáveis com as de há 10 anos atrás. Sim, há ciência de ponta a nível mundial a ser produzida em Portugal. Mas dizer que todos os que por fora andam, a investir na carreira e a abrir mentalidades, uns por opcção, é certo, mas muitos porque não têm escolha se querem continuar a sua paixão são insignificantes revolta… Revolta muito!

Sr. Ministro: como colega cientista, mas acima de tudo como Ministro e político, devia saber que é preciso ter muito cuidado com o que se diz. Pode ser que um dia, depois de tanta indiferença, decidamos todos não voltar e ficar a contribuir nos países que esfregam as mãos por nos receber e que diariamente nos retribuem com condições e garantias que só a sonhar esperaríamos de Portugal…

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